domingo, 8 de novembro de 2015

À espera...

Sexta feira, oito da noite, estava eu na central à espera do autocarro para vir para casa.
Quando cheguei reparei num casal, ambos muito impacientes. Notei que a senhora tinha algum tipo de deficiência, mas fiquei sem perceber qual ao certo. Também me apercebi de que o homem de vez enquando, literalmente, fugia dela, já farto de a ouvir. Parecia o típico casal, juntos à imensos anos e já fartos um do outro.

De repente desaparecem ficando eu completamente sozinha na central. Passado dez minutos a senhora volta a aparecer com um telemóvel na mão, desloca-se até mim emitindo sons. Apercebi-me logo de que era surda e muda. Percebi também de que precisava de ajuda com o telemóvel, ela tentava falar comigo, com sons e gestos, eu tentava perceber, mas não estava fácil.

Comecei a falar mais devagar para ela ler os meus lábios e lá nos conseguimos entender. A senhora não sabia do filho, que supostamente já devia ter chegado. Ela e o marido já estavam à espera à imenso tempo. A senhora já tinha pedido ao marido, que conseguia falar perfeitamente para ligar ao filho mas ele não quis. Ela, muito aflita e como não conseguia falar pediu-me para ligar para um número que já lhe tinha tentado contactar. David era o nome do rapaz e liguei. Não atendeu o filho, mas sim o responsável do lar onde ele estava. Ele tinha perdido o autocarro mas ia apanhar outro a seguir, portanto ia chegar mais tarde.

Acabei o telefonema e tentei falar devagar e com gestos, explicando à senhora o sucedido, ela percebeu e começou a chorar de tão feliz que ficou. Finalmente percebeu onde estava o filho, foi como se lhe tivessem tirado um peso de cima. Perguntou-me se podia sentar ao meu lado e lá ficou ao pé de mim. Até podia ser surda e muda mas conseguimos conversar durante quase uma hora, fiquei a saber que é cabeleireira, que o marido estava desempregado e que tinha problemas alcoólicos, o filho estava no lar porque tinha problemas psicológicos, onde eles moravam e muito mais.

E ali ficámos. Ambas à espera. Mas quando o meu autocarro chegou, fiquei preocupada. Será que o filho iria chegar? Será que ela ia ficar bem? E se eu não estivesse ali, como será que ela ia fazer? Ainda agora penso, será que ficou tudo bem?

Minutos antes de isto acontecer, tirei esta foto na central dos autocarros. Mal sabia eu que a ia usar para contar esta história...


P.S.: A senhora tinha uns olhos azuis lindos, não era um azul qualquer, eram azuis escuros, nunca tinha visto ninguém com olhos daquela cor...