Sexta feira, oito da noite, estava eu na central à espera do autocarro para vir para casa.
Quando cheguei reparei num casal, ambos muito impacientes. Notei que a senhora tinha algum tipo de deficiência, mas fiquei sem perceber qual ao certo. Também me apercebi de que o homem de vez enquando, literalmente, fugia dela, já farto de a ouvir. Parecia o típico casal, juntos à imensos anos e já fartos um do outro.
De repente desaparecem ficando eu completamente sozinha na central. Passado dez minutos a senhora volta a aparecer com um telemóvel na mão, desloca-se até mim emitindo sons. Apercebi-me logo de que era surda e muda. Percebi também de que precisava de ajuda com o telemóvel, ela tentava falar comigo, com sons e gestos, eu tentava perceber, mas não estava fácil.
Comecei a falar mais devagar para ela ler os meus lábios e lá nos conseguimos entender. A senhora não sabia do filho, que supostamente já devia ter chegado. Ela e o marido já estavam à espera à imenso tempo. A senhora já tinha pedido ao marido, que conseguia falar perfeitamente para ligar ao filho mas ele não quis. Ela, muito aflita e como não conseguia falar pediu-me para ligar para um número que já lhe tinha tentado contactar. David era o nome do rapaz e liguei. Não atendeu o filho, mas sim o responsável do lar onde ele estava. Ele tinha perdido o autocarro mas ia apanhar outro a seguir, portanto ia chegar mais tarde.
Acabei o telefonema e tentei falar devagar e com gestos, explicando à senhora o sucedido, ela percebeu e começou a chorar de tão feliz que ficou. Finalmente percebeu onde estava o filho, foi como se lhe tivessem tirado um peso de cima. Perguntou-me se podia sentar ao meu lado e lá ficou ao pé de mim. Até podia ser surda e muda mas conseguimos conversar durante quase uma hora, fiquei a saber que é cabeleireira, que o marido estava desempregado e que tinha problemas alcoólicos, o filho estava no lar porque tinha problemas psicológicos, onde eles moravam e muito mais.
E ali ficámos. Ambas à espera. Mas quando o meu autocarro chegou, fiquei preocupada. Será que o filho iria chegar? Será que ela ia ficar bem? E se eu não estivesse ali, como será que ela ia fazer? Ainda agora penso, será que ficou tudo bem?
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| Minutos antes de isto acontecer, tirei esta foto na central dos autocarros. Mal sabia eu que a ia usar para contar esta história... |
P.S.: A senhora tinha uns olhos azuis lindos, não era um azul qualquer, eram azuis escuros, nunca tinha visto ninguém com olhos daquela cor...